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domingo, 20 de julho de 2025

[Relato encontrado em um dispositivo primitivo]

Os insetos ficaram gigantescos e dominaram o mundo. Suas sociedades são perfeitamente hierarquizadas, cada um tem uma incumbência muito bem definida. Os louva-a-deus desenvolveram uma preferência pela carne humana, especialmente as cabeças. É muito difícil fugir, eles correm, pulam e voam, e quando te pegam, arrancam a cabeça e comem a carne, deixando no chão nossos restos mortais. Baratas e formigas vêm logo comê-los. Vivemos nos escondendo e fugindo. Tivemos que nos tornar veganos, pois não há mais boi, porco ou frango disponíveis para comer. Dividimos os alimentos de origem vegetal com gafanhotos, joaninhas e lagartas. Ainda não conseguimos nos acostumar a andar nús. As nossas roupas acabaram. Enrolamos uma folha em volta da cintura e a amarramos com um pedaço de cipó. Nos tornamos versões apocalípticas de Adão e Eva, não somos o início, mas o fim. Ainda tenho o meu smartphone. Hoje abri o aplicativo de texto e estou escrevendo sobre o que estamos passando, mas a bateria está quase…

terça-feira, 13 de maio de 2025

Arrumando as malas

Enquanto arrumamos as malas para partir, para ir, vamos, também, escolhendo o que queremos levar, o que vai nos trazer lembranças do lar, e, ao mesmo tempo, vamos nos despedindo de tudo o que não vai dar para levar, o que só vai caber na memória. Nunca tem espaço suficiente para tudo nas malas.
Onde quer que a gente vá, tem que levar uma bagagem bem grande, dentro das malas e dentro da gente. Tem coisas que a gente não quer levar, mas não consegue deixar para trás. Também não dá para deixar nos lugares por onde passamos, como se tivesse esquecido por lá. Às vezes a vontade é essa, mas é impossível. Essas coisas vão nos acompanhar sempre. Para onde quer que a gente vá.
Na hora de retornar, vamos juntando as coisas novas, o que queremos trazer de lá, lembranças daquele lugar onde ficamos por algum tempo, ao mesmo tempo vamos nos lembrando de casa enquanto juntamos tudo o que veio e precisa voltar. Temos que apertar um pouco aqui, espremer um pouco alí, senão não cabem todas as coisas.
As malas e o nosso interior voltam mais cheios. Apesar disso, parecem mais leves. É como se o peso extra ficasse no outro prato da balança da vida da gente. O que já carregamos sempre, para onde quer que vamos, parece ficar mais leve na volta.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Showmício

Na época da minha adolescência, quando iam chegando as eleições, as campanhas dos candidatos eram bem diferentes, eles distribuíam todo tipo de brinde: camisas, canetas, lixas de unha, bonés etc. Além disso, davam festinhas nos comitês de campanha com salgadinhos, refrigerante, música e muito bate-papo. O social, a interação, vinha em primeiro lugar.
Outro tipo de evento que a gente gostava muito eram os showmícios: shows de cantores famosos, contratados por um candidato, que fazia um discurso e depois chamava os artistas para o palco. O show começava e, entre uma música e outra, sempre vinha um agradecimento ao candidato que estava patrocinando, um reforço ao número dele e um pedido para voltar nele. Agora não pode mais, é crime.
A gente era adolescente e ainda não votava, mas aproveitava as festinhas e os shows. Dava para fazer novas amizades e conhecer umas meninas da nossa idade. Às vezes já rolava um beijo no comitê mesmo, outras só depois, no showmício. Era tão bom que a gente saía pelas ruas vestindo as camisas com os nomes e os números dos candidatos como se fossem abadás, carregava bandeiras e colava adesivos para todo lado. Verdadeiros cabos eleitorais, só que de graça, ou quase, nosso pagamento era em salgadinhos e refrigerantes. Muito barato para eles.
As camisas viraram pijamas e, depois, panos de limpeza. As canetas foram de grande utilidade para a gente no colégio, para os pais no trabalho e em casa, para deixar junto com o bloquinho de anotações do lado do telefone. Os bonés eram muito feios e, por isso, a gente não usava nem na campanha. As lixas de unha foram tantas que, até hoje, 30 anos depois, minha mãe ainda tem um monte delas presas com um elástico de dinheiro, e olha que ela usa, está sempre puxando mais uma quando a anterior acaba. As festinhas ainda existem, não participo mais, mas ouço falar que agora rola até churrasco. Os showmícios ficaram só nas lembranças. Já as amizades, muitas ainda duram até hoje.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Culinária noturna

Cheguei tarde. Muito tarde. A rua já estava deserta e o porteiro cochilava com a TV ligada passando um daqueles programas que mostram festas de gente rica ou de suas empresas. Continuei até o elevador. Ainda estava quebrado. Cinco andares. Dez lances de escada. Cinquenta degraus. Ainda não sou um idoso, mas também não sou mais um menino. Abri a porta, entrei e sentei no sofá. Fiquei alí por mais ou menos meia hora. Cansado, suado e com dores pelo corpo.
Sempre achei que faltavam quadros nas minhas paredes. Queria ter plantas também, mas nunca deu certo. Tudo acaba morrendo. Não consigo cuidar. Como cuidar de coisas se não estou conseguindo cuidar nem de mim mesmo? O dia-a-dia tem sido muito maquinal, mecânico. Não me sinto mais um ser vivo, nem um robô. Menos que um robô, me tornei um autômato. Sempre a mesma rotina. Esqueci o que sou, o que sinto e o que tenho.
Pensei que seria bom tomar um banho. Me levantei e fui para o banheiro. Tomei. Foi bom. O banho quente ajudou a relaxar o corpo e a diminuir as dores. Me acalmei e a cabeça começou a funcionar melhor, com mais clareza. E a pensar com menos pessimismo. Como estava com fome, fui para a cozinha preparar alguma coisa para comer. Fazer a própria comida é um tipo de terapia também. Descascar, cortar, temperar, esperar o tempo que cada ingrediente leva para cozinhar. E leva muito tempo. O bastante para pensar. Ah! Se eu tivesse todo esse tempo… Tinha que acordar cedo de novo. Fiz um Miojo.

terça-feira, 29 de abril de 2025

Sonhei com Clarice

Acordei assustado de novo. Daquele jeito que a gente acorda quando sonha que está caindo de um prédio. O corpo deu um salto e caiu novamente na cama. Estava muito escuro, só um amarelado que vinha da luz do poste lá fora interrompia um pouco a escuridão. Olhei para o lado, no relógio já era madrugada. A manhã estava distante. Amanhã estava distante.
Virei para um lado e para o outro da cama por incontáveis vezes, mas não consegui pegar no sono novamente. Fiquei pensando na vida, na passada e na presente. Pensei principalmente nela. Sim, nela! Sonhei com ela novamente. Nunca a esqueci. Nunca! Quase uma vida juntos, mesmo estando separados. Tínhamos, e continuamos tendo, uma relação muito íntima, do "de dentro" dela para o meu "de dentro". Muito de mim é ela. Mas do meu jeito. Às vezes acho que, na verdade, sou eu mesmo, mas do jeito dela.
Quis ir à cozinha tomar um café. Era requentado, mas iria servir. Não consegui me levantar. Meu corpo não respondia. Toda vez que sonho com ela é a mesma coisa. Fico estático, imóvel. Engessado. Mas a cabeça a mil. Fervilhando de ideias, sem ter como tirá-las de lá. Se conseguisse me mexer, pegaria uma caneta e pronto. Com muito custo e suor frio consigo. A caneta funciona como um canudo com o qual eu sugo minha mente. O volume é tão grande que me engasgo, tenho uma crise de tosse e regurgito um pedaço dela.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Arroz eterno

Um senhorzinho se aproximou de mim na fila do banco e puxou conversa, daquele jeito que sempre costumam fazer: “- Tá quente hoje, né?”. A gente responde e, a partir daí, o assunto nunca mais acaba.
Outra coisa que também nunca mais acabava, era o arroz que ele mastigava. Sabe aquele grão eterno que fica na ponta da língua de alguns idosos e a gente acaba vendo porque eles mastigam, mastigam, mastigam e depois põem a língua para fora da boca, parecendo até que querem mostrar aquilo para todo mundo, e ele ainda está lá intacto? Como pode uma coisa ser mastigada tantas vezes e nunca acabar? A gente tenta focar na conversa, mas não dá, a nossa atenção fica naquilo, tentando resolver esse mistério.
Ele não parava de falar, e a fila não andava. A fila não andava, e ele não parava de falar. Falava, falava, falava e falava mais um pouco. Eu fingia que estava escutando e entendendo por educação, só balançando a cabeça num “sim” contínuo. Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Às vezes eu ouvia um “naquele tempo que era bom”, “na minha época era muito diferente” e outras frases parecidas. Eu estava alí contra a minha vontade, doido para resolver logo um problema na minha conta. Não dava para ficar prestando atenção nas histórias da vida dele.
Finalmente, consegui chegar ao balcão e pegar uma senha para o atendimento. Entrei na sala de espera. Lá, pelo menos, tinha lugar pra sentar. Uma sala cheia de idosos, eram tantos que olhei para a minha senha e pensei que eu é que deveria ter recebido uma preferencial. Hoje em dia ninguém mais vai ao banco, todo mundo resolve tudo no conforto do seu lar, direto do aplicativo de celular, mas as pessoas idosas têm dificuldade com tecnologias e, por isso, as agências de banco passaram a ser quase que exclusivamente para eles. Mas, para o meu azar, a minha conta deu problema, e era do tipo que só dá para resolver pessoalmente na agência.
O senhorzinho, que eu já tinha apelidado mentalmente de Seu Zé do Arroz, como já era esperado, foi chamado antes de mim… preferencial. Tirou um monte de papeis amarelados de dentro de uma daquelas sacolas plásticas recicladas meio acinzentadas que têm um cheiro ruim e pôs na mesa. Começou a falar batendo com a ponta do dedo indicador em cima da pilha de papeis. Pela distância não dava para escutar o que ele dizia, mas dava para ver que falava um pouco e parava para dar mais umas mastigadas no arroz. O atendente olhava fixamente para ele, provavelmente estava prestando bastante atenção no que escutava para tentar ajudar.
Para a minha surpresa, assim que o atendimento do Seu Zé terminou, eu fui chamado. O atendente me desejou boa tarde e perguntou se eu tinha visto o senhor que ele atendeu antes de mim. Eu disse que sim e que tinha conversado um tempão com ele na fila. Ele continuou: “- Você reparou no grão de arroz que ele fica mastigando? Não acaba nunca!”.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Antigamente tudo era preto e branco?

Na minha infância, no auge da minha inocência, eu pensava que antigamente tudo era preto e branco, porque é assim que a gente vê tudo nas fotos daquela época.
Na verdade, de acordo com o que os mais velhos contam, ao contrário disso, tudo era colorido: as roupas, os carros, as casas e a natureza, que convivia com tudo e todos. Muito mais colorido que nos dias de hoje.
Mais gente trabalhava no campo ou em espaços abertos, hoje trabalhamos fechados sem ver nada além de paredes. As poucas cores que vemos chegam pelas telas dos computadores ou celulares.
Para qualquer lado que olhamos, tudo é asfalto e concreto, ruas e mais ruas, prédios e mais prédios. As casas foram diminuídas e empilhadas. Carros pretos, brancos e cinza, soltando uma fumaça cinza. Quase não sobrou mais espaço para a natureza.
Eram tantas cores… mas as câmeras não conseguiam capturar. Agora temos câmeras capazes de capturar muitas cores, mas a vida não tem mais a mesma cor que tinha antes.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Coca-Cola KS

A Coca-Cola da garrafa de vidro é muito mais gostosa que a que vem nas outras embalagens. Acho que isso é unanimidade. Mas por que? O que ela tem de diferente? Será que o material da embalagem muda o gosto dela?
Hoje em dia existem vários tipos de embalagem para refrigerantes, cervejas e sucos, mas, quando eu era um pré-adolescente, não. Nada de latinhas e garrafas de plástico de todos os tamanhos, tudo vinha em garrafas de vidro. Cerveja e guaraná vinham nas de 600 ml marrom, já a maioria dos outros refrigerantes, vinham nas de 290 ml, a famosa KS.
Naquele tempo, a gente ia numa lanchonete, padaria ou bar e pedia um salgado e uma Coca. Quando o atendente abria a tampa da garrafa, o bico sempre ficava com um anel de ferrugem. A gente não estava nem aí, colocava na boca e ia logo bebendo. Depois era a vez de dar uma mordida no salgado, que vinha num prato de alumínio, em cima de um papel retangular e coberto por dois guardanapos.
Acho que o verdadeiro diferencial da Coca KS está na memória de outros tempos, de momentos felizes, talvez até no gosto de ferrugem. Pode ser também que a mistura de tudo isso crie um sabor mais complexo: o gosto da nostalgia.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Almoço com cerveja

Só de olhar para aquilo já me embrulhava o estômago. Enquanto aquela pessoa almoçava, tomando junto uma lata de cerveja em temperatura ambiente, um líquido viscoso e azedo ia subindo pela minha garganta. Me dava ânsia de vômito.
Uma parada que o ônibus faz no meio de uma longa viagem é importante porque ali a gente desce, estica as pernas, vai ao banheiro, come alguma coisa, alguns fumam um cigarro etc. Mas tem gente que prefere ficar lá dentro mesmo, uns dormindo, outros escutando música, mexendo em seus celulares ou comendo algo que trouxeram de casa. Nem sempre dá tempo de terminarem a refeição e, quando retornamos, acabamos presenciando, de camarote, o grotesco espetáculo.
Era uma colherada, com uma daquelas colheres de plástico, na comida já fria dentro do marmitex, seguida de uma golada na cerveja. E eu imaginando o arroz com feijão se misturando com a espuma morna, com um pouco do gosto do alumínio da latinha, e virando uma massaroca que parecia descer, pelo menos um pouco dela, direto pela garganta, sem nem ao menos ser mastigada. Às vezes escorria um fio da bebida pelo canto da boca e a língua, coberta por um pouco daquilo que estava dentro da boca, logo ia buscar de volta.
Por mais que a gente tente, não consegue parar de olhar para essas coisas. Não sei o que é isso, mas eu virava a cabeça para o outro lado e quando me dava conta, já estava encarando aquela cena de novo. Parece que esse tipo de coisa atrai nossa atenção, é irresistível, é como um imã. Será que o ser humano, por natureza, gosta de se torturar?
Passei todo o restante da viagem suando, com azia e mal-estar. Aquela imagem não saía da minha cabeça. Quando desci do ônibus, peguei minha mala no bagageiro e fui direto ao guichê da empresa para comprar a passagem de volta. Pedi pelo amor de Deus uma poltrona na janela. No corredor, nunca mais!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O clube da molecada

O clube abandonado é o ponto de encontro da molecada no final de semana, para entrar é só pular o muro. É um pântano, mas é o único clube que eles podem frequentar. E eles adoram.
Já fazia bastante tempo desde que as contas ficaram impagáveis, a administração declarou falência e fechou as portas. As piscinas viraram criadouros de mosquitos, com o fundo escorregadio, coberto de lodo e a água muito suja e marrom. 
Numa cidade longe do litoral, não é fácil encontrar lazer que seja refrescante para a família no verão quando se é pobre. Morar perto da praia e ter isso tudo de graça é um privilégio para poucos. Já para quem só tem por perto clubes com mensalidades que não pode pagar, é muito mais difícil.
Rios, lagos e cachoeiras também ficam longe demais para quem mora na cidade e não tem como ir para a zona rural. Na maioria desses lugares, o ônibus, que é a única opção para quem não tem carro, um luxo que está ao alcance de poucos, não vai.
Observar tudo da sacada de um apartamento faz a gente refletir. Costumamos achar que é pouco todo o conforto e aconchego que temos, mesmo que não seja muito, mas o suficiente. Alguns de nós até podem frequentar um clube com os filhos e viajar de vez em quando para o litoral ou interior. E ainda achamos pouco.
Aqueles garotos, que só querem se divertir, como todos querem na infância, voltam para as suas casas sujos, mas felizes, levam uma bronca da mãe, têm que tomar um banho bem rápido para se limpar e, depois, não têm nem um biscoito para lanchar. O jeito é esperar a janta, a sopa diária. Outra água suja. E eles se lambuzam de novo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Apertamento

O anúncio dizia que era uma quitinete, mas aquilo não era tão grande quanto uma. Na verdade, comparada com aquele cômodo, uma quitinete pareceria mais um apartamento de luxo. Mas eu precisava mudar rápido e tinha pouco dinheiro, ia ter que servir. “A pressa é inimiga da perfeição”. Eu não queria ter pressa, fui obrigado a ter, nem queria nada perfeito, mas aquilo era imperfeito demais.
Quando a situação está insustentável, a convivência está impossível, é melhor mudar. Mudar tudo: a cabeça, a forma de agir e reagir, as pessoas, a mobília, a decoração, o ambiente, os ares, em resumo, TUDO. Não queria mais aquilo tudo que me cercava, me apertava e me limitava. Um espaço só meu, por menor que fosse, não me daria tanta claustrofobia. Mesmo tendo pouco espaço para o ar, ele seria mais puro. Por não caber muita coisa, não teria decoração e nem muita mobília, só o básico, bem minimalista, mas, o mais importante, sem ninguém para dizer como, onde, quando ou porque. Só eu morando ali. Ali e na minha mente.
Aquilo não era uma quitinete, era só um quarto, uma suíte. A porta de entrada não abria por completo, ela batia na cama, e eu, que estou acima do peso, tinha que entrar de lado. Já continuava nessa posição para passar no espaço entre a cama e a única parede na qual ela não estava encostada. Assim, eu chegava num ponto no qual já conseguia sentar, com os joelhos encostando na parede. Se continuasse andando, chegaria ao banheiro: uma privada, um chuveiro, quase em cima dela, e uma mini pia, sem porta. Na outra parede, uma prateleira onde eu deixava, ao lado das minhas roupas, um fogareiro elétrico e uma panela, o suficiente para preparar um miojo e cozinhar uns ovos. Um pouco acima da cabeceira da cama, um basculante bem pequenininho era o meu “ar condicionado”. O vento soprava a cortina na minha cara o tempo todo, precisei comprar uma nova, sou alérgico a mofo.
A minha cabeça também estava mais ou menos assim, parecendo bastante com esse quartinho. Mas, aos poucos, passou a parecer mais com uma quitinete, depois com um apartamento normal e, quando me dei conta, já era uma cobertura de frente para a praia. Eu estava pensando nisso enquanto folheava um jornal. Quando cheguei nos classificados, li um anúncio que dizia: “Você se sente só? Saia da solidão…”. Nem acabei de ler, cortei aquele quadradinho com a mão mesmo, deixando um buraco no jornal, piquei em pedacinhos bem pequenininhos e joguei pelo basculante. Continuei minha leitura.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

A bala

(Manhã)


- E aí cara, trouxe a parada?

- Tá aqui!

- Cara! Que legal! Isso é a coisa mais legal que eu já vi na minha vida!

- É mesmo. Não te falei que era maneiro?

- Hehe. Demais cara! Mas como que a gente vai fazer pra detonar ela?

- Acho que vou bater nela com uma pedra.

- Mas e se ela explodir e te machucar?

- Explode nada, a gente mira pro outro lado e tá tranquilo.

- Cê tem certeza?

- Claro! Cê tá com medo, cara?

- Não, claro que não! Só tô preocupado com você.

- Pode ficar tranquilo que não vai acontecer nada comigo.

- Beleza então. Vai lá!

- Porra! Essa merda não detona.

- Cê não deve tá batendo com bastante força.

- Então olha agora. Vou bater com toda a minha força.

- Ah! Cê tá muito fraquinho. Me dá essa pedra aqui!

- Ué! Cê não tava com medo?

- Já falei que não! Eu só tava preocupado.

- Então toma aqui! Quero ver se cê é mais forte que eu.

- Cê não tava batendo direito. Vou te mostrar como que eu tava falando pra bater.

- Vai lá, fortão!

- Vou mesmo!

- Ih! Alá! Não é de nada também! Tirou a maior onda e na hora H nada.

- Ah! Vai a merda!

- Como que a gente vai fazer pra essa porra atirar?

- Sei lá, caralho!

- Que que cê acha da gente pôr na linha e esperar o trem passar em cima?

- É! O trem tem mais força que essa sua mãozinha de boiola. Hahaha.

- E a sua?! Cê também não conseguiu, sua bichona. Hahaha.

- Vamo deixar de bobeira e vamo pro centro pôr essa merda na linha do trem logo!

- Beleza! Vamo lá!

- Agora não, vamo depois do almoço. Já tá quase na hora, senão minha mãe vai me encher o saco.

- Beleza! Vou almoçar também.

- Então a gente encontra depois do almoço na pracinha.

- Tranquilo. Falou!

- Falou!


(Tarde)


- E aí? Vamo lá?

- Porra! Cê demorou pra caralho! Já tem meia hora que eu tô aqui!

- É que depois do almoço tive que dar uma cagada.

- Hahahaha! Cagão!

- Cê não caga, não, porra!

- Tô zoando, cara! Cê pega pilha fácil, hein?!

- Bora pra lá então!

- Bora!

- É aqui ó! Melhor lugar pra pôr. O barulho do trem e a buzina não vai deixar ninguém ouvir.

- Vem cá pra trás do muro, mas despista pra ninguém perceber.

- Esse trem tá demorando muito. Será que hoje ele não passa?

- Passa sim. É que a gente tá nervoso, aí parece que demora mais.

- Mas eu não tô nervoso. Eu sou macho.

- Até parece.

- Sou mesmo! Mais macho que…

- Olha lá ele!

- Até que enfim!

- Não fica olhando. Faz de conta que a gente tá fazendo outra coisa.

- Não tô olhando.

- Tá sim! Cê tá dando na pinta pra caralho!

- Tá chegando!

- Vou ficar olhando pro outro lado.

- Eu não. Quero ver o que vai acontecer.

- Porra! Que barulhão! E aí, como foi? Deu pra ver?

…

- Responde cara! Levanta cara! CARAAAAAAAAAAAA!

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

AQUELE jeito

Tem gente que, quando vai contar alguma coisa para a gente, conta de uma maneira que dá a impressão de que tudo o que ela fez foi melhor do que o que a gente faz. Não estou falando de pessoas que contam vantagem, que se gabam ou se acham superiores, mas daquelas que descrevem o que fizeram “com gosto”.

Todo mundo já conversou com alguém que contou como foi o seu dia, tudo pelo que passou e teve que fazer naquele dia, como ficou cansado, sem forças e sem disposição, mas que, quando chegou em casa, tomou AQUELE banho e saiu com as energias renovadas. Tem também quem conte que estava com muita fome e, quando foi almoçar, comeu AQUELA macarronada, ou qualquer outra comida, o que importa é a ênfase que a pessoa dá na hora de contar.

Acho que eu nunca tomei um banho, nem comi nada tão bom que tivesse merecido o adjetivo “AQUELE (A)” com essa ênfase toda. Já tomei banhos que foram revigorantes, mas nenhum deles foi AQUELE, já comi comidas deliciosas, mas nenhuma delas também foi AQUELA. Talvez eu não esteja fazendo essas coisas do mesmo jeito ou no mesmo lugar que as tais pessoas que contam fazem.

Para falar a verdade, acho que nem essas pessoas chegaram a tomar um banho ou a comer algo tão bom assim, o jeito como elas contam é que parece criar um outro mundo dentro das nossas cabeças, onde tudo é melhor. Elas gesticulam de uma maneira diferente enquanto descrevem o banho que tomaram e falam com a boca cheia d’água e como se estivessem sentindo o sabor enquanto descrevem as comidas que comeram. É tudo o jeito. E eles têm o jeito. AQUELE jeito.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Por que você bebe?

Não me lembro bem se o meu primeiro contato com o álcool foi através do Biotônico ou do mimeógrafo. Eu era muito novo e algumas memórias do início das nossas infâncias acabam se perdendo. Ficam só alguns fragmentos e as histórias da família.
Minha mãe conta que eu era “ruim de comer”, por mais que ela tentasse, nunca conseguia me fazer comer nada. A solução foi apelar para o Biotônico. Era só tampar o nariz e enfiar goela abaixo para abrir o apetite. O gosto era meio estranho e forte, mas com o tempo fui me acostumando e depois passei até a gostar e já pedia: “- Manhê! Me dá cachacinha?”. Esse apelido era muito comum, algum adulto lá em casa experimentou e falou, mas depois descobri que as outras crianças também chamavam ele assim. Mais tarde, cheguei pessoalmente à conclusão de que o gosto era bem parecido mesmo. Assim como um dia eu descobri que o Biotônico tinha aquele gostinho de cachaça e passei a desconfiar que tinha álcool alí, os órgãos de fiscalização também desconfiaram, fizeram testes e descobriram que realmente tinha. A fórmula teve que ser mudada para poder continuar vendendo.
Já no caso do mimeógrafo, este não me foi apresentado em casa, foi na “rua”, ou melhor, na escola. Os professores pegavam um pacote de Chamequinho, que os nossos pais tinham que levar todo início de ano letivo, e uma garrafa de álcool, colocavam cada um no seu devido compartimento, o “original” da prova na bandeja e começavam a girar a manivela, por isso diziam que iam “rodar” a prova. A folha entrava branca e saía uma cópia quase perfeita daquele “original”, só que da cor azul e com um cheiro muito forte de álcool. Descobrimos que cheirar aquelas folhas “dava onda”, a gente ficava meio tontinho, era o “barato” da molecada. Com o tempo, o mimeógrafo foi sendo superado pela tecnologia, principalmente quando ela começou a baratear. As cópias ficaram mais fiéis aos originais, inclusive a cor preta dos textos das provas. O cheiro já não fazia mais parte do processo e não se fala mais em “rodar” as provas, agora elas saíam automaticamente e numa velocidade muito maior.
Na minha memória ficaram gravadas aquelas sensações da minha infância: o gosto, o cheiro e a “onda”. Quando cresci, as encontrei de novo em um bar qualquer, dentro de um copo. Foi como ter nas minhas mãos a nostalgia em forma líquida para beber. E ainda tem gente que pergunta: “- Por que você bebe?”.

sábado, 29 de junho de 2024

Entre a Broca e a TV

Sou uma pessoa que tem medo de dentista. Até o barulho da broca, mesmo fora da boca, já faz os meus dentes doerem. Enquanto estou na sala de espera, fico inquieto, não folheio revistas, não aceito copo d’água e, cada vez que escuto aquele barulho, quase vou embora. Algumas vezes já fui. É psicológico isso, não tem explicação.

Quando finalmente sou chamado, primeiro finjo que não escutei, mas na segunda ou terceira vez não dá mais para fingir, tenho que ir. Antes de sentar na cadeira, puxo tudo quanto é tipo de assunto, elogio a decoração, pergunto pela família etc, até que o dentista quase me empurra na cadeira e diz: “- Então vamos lá, né?!”.

Assim que me sento, meu corpo começa a ficar todo duro, um calafrio passa pela minha espinha e todos os pelos do meu corpo ficam arrepiados. Mas é quando o encosto vai abaixando e a cadeira vai subindo que as mãos se travam nos braços dela e o suor começa a escorrer, parecendo que eu acabei de sair do banho e ainda não me enxuguei.

Foi então que surgiu a pergunta que mudou tudo:


- O que você quer assistir?

- Como assim?

- Na TV, enquanto a gente faz o seu tratamento.

- Que TV?

- Aquela alí no teto.

- Você tem uma TV no teto?!

- Sim, agora todos os consultórios de dentista têm.

- Tem tanto tempo que não vou num dentista que nem sabia, isso pra mim é novidade.

- Então, o que vai querer assistir?

- Nada. Nada não. Obrigado.


Pronto! Agora eu tinha um novo medo: o de a TV cair em cima de mim. Tentei aparentar naturalidade enquanto a gente estava conversando, mas não sei se consegui disfarçar. Acho que quanto mais a gente tenta, mais a gente acaba demonstrando.

Desse momento em diante, eu já não conseguia pensar nem enxergar outra coisa a não ser a TV. Era como se eu estivesse dentro de um quarto totalmente vazio onde só tinha eu, deitado na cadeira, e a TV, no teto, pronta para cair. Às vezes até parecia que ela dava umas balançadas, como se fosse uma pessoa ameaçando me dar um soco.

Uma voz disse: “- Prontinho, acabou!”. Era o dentista. Ele já tinha terminado o meu tratamento e eu não tinha percebido. Não senti nada. Não escutei nada. Nem a broca!

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Verde e rosa

O pessoal lá do bairro adorava o carnaval. Todo ano nessa época era a maior festa, todos se reuniam em uma das poucas casas que tinham uma TV para assistir aos desfiles das escolas de samba de São Paulo e do Río. Depois vinha a torcida no dia da apuração. Tinha gente que não tinha uma escola preferida, torcia para a que achou mais bonita, tinha quem torcia para essa ou aquela escola, mas a grande maioria torcia para a Mangueira.
O amor por esse período do ano era tão grande que eles até fundaram um bloquinho, que passou a desfilar anualmente pelas ruas do centro da cidade. Os ensaios eram feitos na praça do bairro, cada um trazia o próprio instrumento, que era sempre usado ou improvisado, por causa da falta de recursos, e sem uma boa afinação, pois ninguém entendia muito disso, mas, com toda a vontade e empolgação, acabavam saindo versões meio diferenciadas de sambas e marchinhas clássicos.
Com o passar dos anos, o pessoal foi aprendendo a tocar melhor, a afinar os instrumentos e conseguindo, aos trancos e barrancos, comprar instrumentos cada vez melhores e mais novos. Seguindo por este caminho, foram se organizando cada vez mais, até que um dia o bloquinho virou escola de samba. Escolheram as cores verde e rosa, claro, as mesmas da Mangueira. Ainda ensaiavam na mesma praça, pois ter uma quadra, mesmo que o espaço fosse alugado, ainda estava muito longe daquela realidade.
Ali, naquela praça, começaram também muitos namoros. O pessoal que ia assistir aos ensaios, já tinha até gente que vinha de longe, aproveitava para tomar uma cerveja no bar que ficava do outro lado da rua, para fazer uma fezinha na banca de jogo do bicho, que ficava em uma das antigas casinhas da vila onde antes pessoas moravam, e também para sambar. Enquanto isso, os filhos adolescentes se conheciam, conversavam e trocavam beijos e números de telefone. Várias dessas histórias terminaram em casamento.
Nossa escola de samba também se “casou”. Foi quando a sua maior fonte de inspiração, a Mangueira, se tornou sua madrinha. Daí para frente, vieram vários títulos de campeã, uma sede e a tão sonhada quadra. Enfim, não faltava mais nada.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Churrasquinho

Quem vinha por aquela rua calçada, com certeza passava pela barraca de churrasquinho que ficava no passeio, encostada no muro de um terreno baldio. Era uma daquelas barraquinhas com a estrutura toda de barras de ferro que se encaixam para montar e coberta por um plástico preto grosso. Uma tábua de madeira que ficava apoiada em cima das duas laterais servia como balcão, onde ficavam a pequena churrasqueira a carvão preta feita em ferro fundido e algumas garrafas vazias de refrigerante e cerveja para mostrar quais eram as opções de bebidas, já que não tinha cardápio. No caso do churrasquinho, era de boca mesmo, tinha que perguntar.

Um senhor, que estava sempre de boné, fazia tudo sozinho: descarregava a mercadoria, as ferragens, os isopores e tudo mais, montava a barraca, preparava os churrasquinhos e atendia os fregueses. Ele trazia as coisas na sua velha Caravan e na carretinha que vinha engatada nela. Dizia que gostava do que fazia, gostava de trabalhar e que já tinha formado todos os seus filhos vendendo churrasquinho, não ficou rico, mas nunca faltou nada em casa. Dava para notar que ele gostava muito de conversar também, contava sua vida inteira e era cheio de histórias.

Da primeira vez que fui na barraquinha, eu ainda era criança e foi meu pai quem me levou. Foi mais ou menos assim:


- Opa! Tudo bom menino?

- Tudo bom, moço.

- Hoje o papai te trouxe, né?

- É.

- Boi, porco ou frango?

- Frango!

- Passa no vinagrete?

- Aham.

- Passa na “areia”?

- Areia no churrasco?

- É farofa! - respondeu meu pai rindo.

- Ah! Então pode. Bastante “areia”!

- Tá na mão! Coca?

- Quero.

- Taí, geladinha! Manda ver!


Foi o churrasquinho mais gostoso que eu já tinha comido e acho que até hoje ainda é. Ainda são 4 gominhos de carne no espetinho de madeira, a mesma churrasqueira, o mesmo vinagrete e a mesma “areia”. Eu fico rindo da reação das pessoas à pergunta “Passa na ‘areia’?”. Poucas coisas mudaram, a Coca deu lugar à cervejinha gelada e as histórias agora eram sobre o pai que trabalhou até o último dia da sua vida naquela barraquinha.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Empada de queijo

Um dia eu estava numa lanchonete comendo uma empada de queijo e ouvi uma pessoa falar que os homens geralmente não gostam de empada, mas as mulheres sim. Não disse o motivo e nem deu mais nenhuma explicação, apenas “deixou no ar”. Fiquei com isso na cabeça. Gosto muito de empada, ainda mais se for a de queijo, e isso me intrigou.

Sou um apaixonado pela empada de queijo desde criança, é uma paixão que chega a ser quase amor. Desde a primeira vez que coloquei uma na boca, ela já foi entrando e ocupando um lugarzinho no meu coração, como se fosse um quartinho que estava disponível para aluguel há muito tempo e finalmente tinha aparecido um inquilino que paga em dia, não faz barulho e não reclama de nada. Acho curioso ela ser a única que não tem aquela “tampinha” de massa cobrindo, o recheio dela é exposto, e isso parece que influencia a minha vontade de comer, eu vejo o recheio e parece que já começo a sentir um pouco do gosto. Ela é honesta, não tem nada para esconder.
A empada é um dos salgados mais populares do Brasil, ela é feita com aquela massa podre deliciosa que desmancha na boca e com todo tipo de recheio que a gente pode imaginar: frango, camarão, palmito, carne moída, queijo, etc. Agora tem até empada doce! No lanche da tarde ou em festinhas de aniversário de criança, numa confraternização ou num coffee break, ela é presença certa e indispensável, quase obrigatória. Por que os homens não iriam gostar? Será que as mulheres têm uma sensibilidade diferente da dos homens também em relação à empada? Será que eu tenho um lado feminino quando se trata de lanchar?

Passei a observar as pessoas que entram nas lanchonetes onde estou lanchando e o que elas pedem. Não foi por uma semana, por um mês, trimestre ou semestre, foi por anos. Nunca vi um homem pedir uma empada.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Salgado no saco de papel

Toda vez que pego um ônibus, para qualquer bairro que seja, sempre tem alguém comendo uma coxinha ou um pastel num saco de papel pardo com uma mancha úmida de gordura. A pessoa abre o saco, puxa o salgado um pouco para fora, dá uma mordida, passa a língua entre os lábios para tirar os farelos, enfia o salgado de volta no saco e começa a mastigar, tampando a boca com umas das mãos. Tudo isso com uma postura encurvada, quase corcunda, e um olhar desconfiado para os lados, como se estivesse comendo escondido, com medo de alguém pedir um pedaço. Eu que não seria. Nem aceitaria se me oferecesse. Mas só pelo egoísmo, fico desejando que tenha uma baita duma azia.

Acho que nem todo mundo pára para pensar com mais frieza nos detalhes da forma que deveria. Além do ônibus não ser o local mais indicado para se fazer um lanche, por causa da quantidade enorme de gente que colocou as mãos no mesmo lugar que você, pessoas de higiene duvidosa, por exemplo, não se pode esquecer que você pegou no dinheiro para pagar o salgado e a passagem. Qual foi a mão que segurou aqui e ali? Qual foi a que pegou no dinheiro? Qual vai segurar o saco engordurado? Qual vai puxar e enfiar o salgado de volta no saco?

Quando vejo uma pessoa comendo naquele lugar, tudo isso passa pela minha cabeça e meu estômago já fica embrulhado. Se estiver com fome, perco o apetite na hora. Mas ela, não! Ela está lá, com aquela mão suja, se deliciando com aquele salgado como se ele fosse a refeição mais deliciosa desse mundo, tão gostosa que vai mastigando, mastigando, mastigando e nunca engole. Na maioria das vezes demora uns 10 minutos para dar mais uma mordida. Sempre deixando cair um monte de farelos na blusa que, se for de lã, que é a que agarra mais, acaba virando uma árvore de Natal de casquinhas de pastel, pedacinhos de carne moída, fiapinhos de frango, entre outros “enfeites”.

Mas o pior de tudo mesmo é a pessoa ser egoísta. Apesar de estar comendo um lanche gorduroso, sujo e babujado, ela acha que todos os outros passageiros do ônibus estão mortos de fome a ponto de não conseguir esperar chegar ao destino para comer alguma coisa e cobiçam seu salgado como se ele fosse a última comida disponível na face da Terra. Cada vez que o ônibus pára em um ponto, parece que dá para ver escrito na cara dela: “menos um” ou “menos dois”.

Chega uma hora que, por estar satisfeita, ou por estar com muito medo de dividir, a pessoa simplesmente pára de comer, guarda o restante no saco, dobra ele várias vezes e guarda dentro de uma bolsa ou mochila para terminar mais tarde. O que acontece depois, nunca vou saber. Eu sempre desço antes.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Raquete de matar pernilongo

A raquete de matar pernilongo me proporciona um certo prazer. Confesso que acho esse prazer um tanto quanto estranho, mas sei, também, que o compartilho com muitas outras pessoas. Lá no meu prédio mesmo, já ouvi aquele estalo que ela produz quando algum inseto encosta na sua trama eletrificada vindo de janelas de diversos apartamentos. Tem dias que parece até que estou jogando tênis com um dos meus vizinhos, eu dou uma raquetada de cá e escuto o estalo da raquete dele de lá. Outros dias tenho a impressão que estou ouvindo metralhadoras.

A responsável pelo desenvolvimento dessa raquete deve ser a indústria do entretenimento, que quis trazer a emoção dos videogames para a vida real. Eles pensaram em tudo: elementos do esporte, de jogos de estratégia e de guerra. Caçamos sem precisar de uma licença, nem curso para aprender a utilizar uma arma de fogo. É uma "diversão" que ajuda a descarregar nossa raiva, sede de vingança e a suar um pouco, assim como no esporte.

Existe um ditado que diz que "a vingança é um prato que se come frio", mas quando se trata de pernilongos, a minha vingança é em forma de churrasco. Já disse que eu mesmo acho estranho, mas o prazer de ver aquele mosquito agarrado na raquete enquanto a gente segura o botão e ele vai torrando, deixando subir uma fumacinha, inseticida nenhum é capaz de proporcionar.

Sou sádico? Sou! Mas esse bicho também é. A gente acaba de espantar e ele volta para a nossa orelha. Uma picada na perna ou no braço é ruim, coça, mas o zumbido na orelha é só para atrapalhar a gente a dormir mesmo, ele nem pica ali. Só estou jogando o jogo dele.